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Câncer Pediátrico

O câncer na infância corresponde a uma pequena parcela de todos os casos de câncer, representando entre 2 e 4% de todos os casos. Isto significa, para nosso país, nos dias de hoje, cerca de 12.500 novos casos entre 0 e 18 anos de idade (dados do INCA – Instituto Nacional de Câncer – 2019).

Câncer Pediátrico

O câncer na infância corresponde a uma pequena parcela de todos os casos de câncer, representando entre 2 e 4% de todos os casos. Isto significa, para nosso país, nos dias de hoje, cerca de 12.500 novos casos entre 0 e 18 anos de idade (dados do INCA – Instituto Nacional de Câncer – 2019).

Apesar de representar uma parcela pequena, sua relevância é muito grande. A tal ponto de constituir, em nosso país como um todo, de modo similar a outros países com maior grau de desenvolvimento, a 2ª causa de mortalidade entre pré-escolares e o final da adolescência, somente sendo superada pelas mortes que têm, em seu denominador comum, causas relacionadas à violência.

A forma mais comum de câncer pediátrico é representada pelas leucemias agudas, especialmente as de tipo linfocítico. Em essência, todo tipo de câncer pode ocorrer em qualquer idade, variando evidentemente a incidência correspondente. Mas há formas de câncer virtualmente exclusivas de cada faixa etária. Assim, como neoplasias importantes, quase que exclusivas de idade pediátrica, podemos citar os neuroblastomas (tumores normalmente desenvolvidos a partir das glândulas adrenais) e os tumores de Wilms (originários dos rins).

Existe uma ideia errada, mas com elevado grau de influência, de que o câncer pediátrico seja uma doença que atinge crianças predispostas a seu surgimento, geralmente por razões genéticas. Além do mais, permeia o pensamento comum a ideia de que o câncer pediátrico tenha uma forma óbvia de apresentação, com sinais e sintomas que o distinguem claramente uma vez que se apresente. Assim como, também é considerado como definitivo ou até mesmo fatal, quando diagnosticado.

Essas ideias precisam ser desmentidas!

Começando pela questão da predisposição. Existem, de fato, formas hereditárias de câncer, alterações genéticas que fazem parte do patrimônio genético de cada indivíduo que predispõem ao câncer (síndromes familiares), e algumas poucas situações em que a exposição prévia permite supor uma propensão maior a seu desenvolvimento (por exemplo, em mães que, ao início da gestação, são expostas a raio X). Diferentemente do câncer de adulto, no qual inúmeras situações possuem influência ambiental, de exposição a tóxicos (cigarro, por exemplo) e até de hábitos alimentares são predisponentes de câncer, permitindo um trabalho de orientação preventiva, na criança essa possibilidade é praticamente inexiste. Podemos sim estimular a criança a evitar desde cedo exposições que trariam no futuro consequências danosas. Mas é muito mais um trabalho de orientação a longo prazo. Em termos mais imediatos, muito mais do que a prevenção, na criança o mais importante é o que o diagnóstico seja precoce, para contribuir para o tratamento. Embora em até 15% dos casos seja possível reconhecer uma alteração genética que seja própria daquela neoplasia, situações claras de predisposição, reconhecidas pela própria constituição da criança, são presentes em limitados 4% dos casos. Em função do diagnóstico precoce, reforça a importância da avaliação e acompanhamento pediátrico rotineiro.

O segundo conceito a ser desmistificado, é o de que o câncer pediátrico é acobertado por situações e sintomas frequentes em crianças. Por exemplo, na leucemia linfocítica aguda, a mais comum das neoplasias pediátricas: seu mais comum sintoma à apresentação é a febre, presente em tantas doenças que acometem crianças em seu dia a dia. É evidente que não é o surgimento de uma febre que deve levar às crianças de imediato à investigação de um possível câncer. Mas se o problema persiste, e se uma explicação óbvia não surge, não devemos ter medo de explorar a possibilidade da existência de um câncer.

Além disso, é necessário esclarecer que as perspectivas para os tratamentos, uma vez que o diagnóstico de um câncer seja feito, são muitas. As chances de melhores desfechos são absolutamente reais dependendo da complexidade e da evolução individual de cada criança, por isso é importante investigar e sanar todas as dúvidas com o seu profissional de saúde.

Poucas áreas da Medicina evoluíram tanto em tão curto espaço de tempo como a Oncologia Pediátrica. Ao contrário dos cânceres de adultos, muitas vezes limitados e passíveis de realização cirúrgica que os controle de modo definitivo, raramente esta possibilidade é materializada em idade pediátrica. O câncer pediátrico tem de ser entendido como, uma forma disseminada de doença, o que explica o fato de que os sucessos terapêuticos somente tenham surgido com o início da moderna era da quimioterapia.

O progresso, a partir de então, foi fantástico. Hoje, são constatados índices de cura, de pelo menos 70% para o câncer pediátrico como um todo. Há formas, como as leucemias linfocíticas agudas, cujos índices terapêuticos, em sua forma de apresentação menos agressiva, superam os 90%. O mais importante é tudo o que acompanha esse imenso progresso. Cada vez mais, podemos manter as crianças em uma vida “normal”, ou muito próxima do normal, com frequência à escola e tudo o mais que faz parte do universo pediátrico. E mais, com perspectivas relevantes de manutenção de todas as aspirações futuras de uma criança, como crescer, estudar, constituir família, enfim, inserir-se na sociedade de modo indistinguível das outras que não passaram por essas adversidades. E, tendo descendentes normais inclusive, sem a temida possibilidade de que a doença anterior ou seu tratamento possam ter trazido consequências negativas às próximas gerações.

Evidentemente existem problemas associados. Claro que há limitações que não podem ser ignoradas. Há ainda uma toxicidade expressiva. Os tratamentos, por maiores que os avanços sejam, não conseguem poupar por completo os tecidos normais de nosso organismo. Mesmo assim, novos recursos e tratamentos são acrescentados tornando os tratamentos mais efetivos e de toxicidade mais limitada. Os transplantes de medula óssea, teve um salto exponencial a partir da segunda metade da década de 70 e hoje compreendem uma série enorme de modalidades, permitindo uma maior possibilidade de uso, a uma toxicidade aceitável. As drogas que atuam sobre alterações específicas de uma neoplasia, poupando as áreas normais, as chamadas “terapias alvo”, são cada vez mais frequentes, e de utilidade demonstrada cada vez maior. A terapia genética, que interfere na causa determinante das neoplasias diretamente, corrigindo o efeito intrínseco que as provoca, evolui a passos largos e em pouco tempo será de grande emprego.

Enfim, esta talvez seja a grande mensagem para quem tem um câncer, e para as famílias que convivem com esta luta: particularmente em crianças, o tempo não corre contra. Ele está a nosso favor. É uma luta que vale a pena ser lutada.

Vicente Odone Filho
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – ITACI – USP
Hospital Israelita Albert Einstein

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